A cilada do preço fixo

Houve um tempo em que eu faria qualquer coisa para fechar um projeto freelance. Hoje em dia ando ocupado mais ou menos 101% do horário comercial, então freelance não é minha prioridade, mas pode ser pra um dos 6 que vão ler esse post. Eu sinto sua dor. Nessa época fui procurado para desenvolver um sistema de helpdesk, e disso eu entendia alguma coisa pois tinha criado um semelhante poucos anos antes. Não poderia reusar o código, primeiro porque aquele era proprietário da empresa onde o fiz, segundo porque queria excluir Lotus Notes do currículo. Decidi que eu criaria o sistema do zero, em PHP e MySQL – naquela época não existia o fenômeno open source de hoje, então ou você fazia na unha, ou comprava a ferramenta pronta. Fiz meu preço, bem camarada, porque eu queria muito pegar aquele trabalho. O cliente achou caro e disse que seu sobrinho fazia mais barato!

É uma cilada, Bino
É uma cilada, Bino

Antes tivesse eu me respeitado e deixado que o sobrinho fizesse, então, mas engoli o orgulho e reduzi meu preço, que já era baixo, pela metade.

Não me orgulho disso.
Não me orgulho disso.

Não firmei contrato nem nada, amador que era, não especifiquei o escopo, apenas saí fazendo. Cadastro de usuários, cadastro de categorias dos chamados, lançamento dos chamados, workflow de atendimento, prioridades, e por aí vai. Foi um mês de trabalho intenso, e tenho que dizer, me orgulhei muito do resultado. Não apenas a funcionalidade estava lá, mas, por conta da minha vocação de designer, a app ficou muito bonita, modéstia à parte. Quando considerei que o trabalho estava pronto, recebi credenciais para entrar na rede do cliente e instalar o sistema. Sistema instalado, testado, entregue! Quando fui cobrar meu suado cachê, ouvi talvez o maior desaforo da minha carreira:

Mas, Gustavo, onde estão os relatórios? Só vou te pagar depois que tu fizer os relatórios!

Repare no plural, os relatórios. Não apenas nunca me haviam sido solicitados, mas qualquer relatório decente ali deveria fazer dobrar o valor do trabalho. Ora, existem produtos que fazem nada mais do que relatórios, e ganham muito dinheiro, por que eu deveria fazê-los de graça?

Cansei.
Cansei.

Numa incrível demonstração de equilíbrio emocional, eu simplesmente abandonei o projeto. Mentira, foi imaturidade mesmo. Deixei o sistema instalado na rede do cliente, e como punição por não me pagar, eu não entreguei os relatórios. captain-picard-facepalm

Lição aprendida

Não contei essa história para exibir minhas qualidades como desenvolvedor de software, designer ou gerente de projeto. Eu poderia enumerar os erros que o jovem freelancer cometeu: aceitar a concorrência de um sobrinho, não definir o escopo, abandonar o projeto, deixar de cobrar o justo valor, entre tantos outros – mas vou destacar um em especial, a maior lição que aprendi na ocasião: trabalhar a preço fixo. Não me entenda mal, não há mal nenhum em realizar um projeto com escopo fechado e fixar o preço do seu esforço baseado nesse escopo. Nesse caso, entretanto, é preciso ser muito mais cuidadoso para o cliente não passar por cima de você. Escopo fechado requer requisitos muito bem definidos, e um acordo prévio entre as partes envolvidas, deixando bem claro que o escopo não poderá ser alterado sem que o orçamento seja revisto. Ora, não é preciso um MBA para saber que o escopo vai mudar. Você não deve ter uma contingência para se o escopo mudar; esteja preparado para quando isso acontecer. No meu próximo post, vou falar sobre projetos ágeis e por que você quer que o seu projeto seja assim.

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